retrospectiva

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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sobre assistir um ballet no Palais Garnier...

Duas semanas em Paris, e ontem foi minha primeira saída solo pela cidade. AMO passear com pequerrucho e maridão, mas vamos combinar que minha própria companhia também me faz um bem danado! he he... Ismael bem que tenta me convencer a aproveitar mais as oportunidades de sair sozinha, pois ontem aproveitei! Nós já tínhamos comprado os ingressos para o ballet pela internet, quando ainda estávamos no Brasil, duas noites separadas pois aqui não temos vovó Aí e vovô Beleto pra ficar com Joaquim quando saímos.

Final da tarde, chuvinha insistente caindo e lá fui eu, toda feliz para minha soirée. Saí da estação do metrô com guarda-chuva aberto em mãos. Sabe aquela cena de filme em que a câmera faz um zoom vindo do alto em direção ao guarda-chuva que o personagem está segurando e ao se aproximar revela o personagem por trás do guarda-chuva com uma expressão de "embasbacado" no rosto, como quem se depara com algo surpreendentemente belo? Pois foi a cena que vivi ao sair da estação Opéra e dar de cara com o Palais Garnier. Aliás, eu não sei quantas vezes eu já parei pra ficar olhando essa lindeza de edifício, mas acho que toda vez faço a mesma cara de embasbacada. Passado o primeiro momento de deslumbre, segui para meu compromisso, me sentindo toda importante com o ingresso em mãos.



No ano passado, nos últimos dias de Paris, uma das coisas que ainda aproveitamos para fazer foi a visita guiada ao Palais Garnier, foi muito legal, ficamos super impressionados. E essa visita anterior me deu certo desprendimento ao entrar lá ontem, principalmente porque eu acho que se fosse minha primeira vez lá dentro eu perderia o início do espetáculo, não por me perder, porque apesar de o lugar ser imenso, tinha muitos atendentes e guias orientando super bem o público, mas porque a gente fica bobo mesmo, sem saber pra que lado olhar primeiro, é tudo muito lindo! Muitos detalhes delicados, rebuscados e impressionantes... lindo! Bom, eu consegui manter o foco e fui ao meu lugar, 3èmes loges de face 27 - place 5, só precisei descobrir que ficava no 4o andar, o resto eu eu decifrei sozinha, he he... quando cheguei no "meu" camarote dei de cara com uma porta fechada e sem trinco. Como assim? Meio segundo de dúvida foi suficiente para, do nada, surgir um rapaz de smoking perguntando se podia me ajudar, oui! Mostrei a ele meu ingresso e descobri que ele era o guardião das chaves do lado ímpar dos 3émes loges. A porta foi aberta e meu lugar apresentado, quando vi onde eu iria sentar só consegui dizer Mon Dieu! Não foi nem Merci, nem Thanks, foi mesmo Mon Dieu! De cara eu achei que não veria nada do espetáculo, haviam 9 pessoas no camarote, 10 comigo, sentadas em três fileiras num ângulo não muito favorável em relação ao palco. Quando finalmente me acomodei na minha cadeira fiquei um pouco mais aliviada, conseguia enxergar talvez 60% do palco, mas nada de ver a orquestra se ficasse sentada, o que me fez levantar uma vez ou outra para espiar os músicos. Porém quando a cortina se abriu e o espetáculo iniciou, percebi que havia conquistado mais campo de visão, acho que não tem lugar naquela platéia de onde não se enxergue aquele palco imenso! Passei a visualizar uns 90% do palco, havia apenas um cantinho impossível de ver, mas me convenci de que nada importante aconteceria ali, rsss...

O espetáculo estava muito bonito, uma super produção de cenários e figurinos, bailarinos com uma ótima performance mas... pra mim o espetáculo maior ainda era estar sentada lá, naquele camarote, me sentindo às vezes num filme de época, imaginando os nobres que estariam sentados nos camarotes vizinhos, os vestidos deslumbrantes das madames, duquesas, condessas e marquesas. A propósito, fique me perguntando se havia alguma regra de figurino para ir a um ballet no Palais Garnier, mas conclui que não existe regra alguma, vi uma ou outra distinta senhora um pouco mais produzidas, mas no geral a etiqueta diz "venha como quiser". Em outros momentos me senti num daqueles filmes de suspense em que o diretor explora a escuridão na platéia e os olhares do público se cruzando de um camarote para outro, música clássica como trilha, preparando para o momento ápice do suspense... eu quase vi Le Fantôme de l'Opéra vagando nos fundos escuros dos camarotes do outro lado da platéia... uuuuu!!!!

No primeiro intervalo aproveitei para olhar com calma tudo de novo lá fora, os corredores, as escadarias, o hall... eu e a torcida do Flamengo! Só dava neguinho com máquina fotográfica registrando aquele deslumbre todo. Começou o segundo ato e voltamos todos aos nossos lugares. Os camarotes são o que há de fofos, tudo acarpetado, em vermelho, sofazinho na entrada, porte manteaux na parede que é pra ninguém ficar derretendo em seus casacos por causa da calefação, espelho para as madames darem uma conferida no look antes de expor sua figura em seus acentos com vista para os outros 1978 espectadores. Quando terminou o segundo ato, com o assassinato do irmão de Manon (o espetáculo era L'histoire de Manon), me dei conta de que ainda havia um intervalo e mais uns 45 minutos de espetáculo. Me dei por satisfeita, já tinha curtido um bom bocado e para ajudar a me convencer de que era hora de partir, meu vizinho de cadeira havia ferrado no sono durante o segundo ato e precisei empurrá-lo de volta umas três vezes quando senti que estava servindo de escora para o sujeito, ninguém merece, né?

Saí feliz (junto com bastante gente) do Teatro mais lindo que frequentei até hoje e continuei sorrindo quando  dei de cara com as ruas molhadas em frente ao teatro, a chuva havia parado, mas deixou sua marca aumentando o brilho dessa noite que foi vraiment charmant, ou, de fato encantadora!














quarta-feira, 2 de maio de 2012

O meu reencontro com Paris...

Ismael escreveu sobre seu reencontro com Paris. Acho que o meu demorou um pouco mais... Fico analisando e penso que chegar aqui com a notícia fresquinha de que nosso segundo bebê está a caminho, somando ao fato de que nessas duas primeiras semanas choveu todos os dias e fez muito frio, foram motivos suficientes para me tirar um pouco o foco do fato de que estamos aqui novamente.

Mas a ficha caiu. E foi no fim da tarde de domingo, depois de passarmos algumas horas com amigos queridos em nossa casa, saímos para uma despedida de outra amiga, brasileira, que estava voltando ao Brasil no dia seguinte. Quis o acaso que o Ismael esquecesse de levar junto o endereço de onde seria a despedida, e só se tocou disso quando já estávamos no metrô. Ok, qual é o plano? Decidimos ir até o Marais para flanar um pouco até o horário de uma peça de teatro que Ismael assistiria mais tarde. Foi mágico. Sair da estação de metrô e dar de cara com as ruas molhadas, e iluminadas por um sol delicioso de final de tarde, o movimento, o cheiro, as cores, os sons... foi como se tudo gritasse para mim: "Oui, tu és à Paris!!!!".

Foi como matar a saudade de uma velha amiga, saudade que a gente nem se dá conta de que é tão grande, até que acontece o reencontro. Simplesmente caminhar, dar de cara com uma livraria Mona Lisait, se perder nos porões de livros empoeirados, entrar numa loja vintage de roupas semi-novas só pra ver, e sorrir. Ter vontade de sentar em cada café para sentir o sol no rosto numa mesinha na calçada... A gente se pega sorrindo sem querer, enquanto não cansa de andar e andar pelas ruinhas de nos levam ao Louvre, à Comédie Française, ao Centre Pompidou. Me encontrei com Paris!



E hoje foi como a comprovação de que é aqui mesmo que estamos! Demos início à temporada dos piqueniques!! Foi feriado aqui (e acho que no resto do mundo...) de 1o de maio, e para brindar o feriado, fez um dia lindo!! O primeiro sem chuva desde que chegamos. Todo mundo teve a mesma idéia que nós, Paris inteira estava nas ruas, um clima de festa delicioso, o gramado dos parques e calçadas às margens do canal disputadíssimos, todo mundo querendo "lagartear". E até o frio deu uma trégua, primeiro dia em que pudemos dispensar os casacos, ficar em mangas de camisas e ver Joaquim correndo descalço na grama... foi lindo!







quarta-feira, 25 de abril de 2012

Reencontrando Paris [ismaEU]

Hoje, fim da tarde, ao sair da universidade, vi que o céu tava azul e que tinha um sol claro. Decidi caminhar pra aproveitar, afinal em mais de uma semana em Paris só vimos muito frio, vento e chuva muitas vezes por dia, todos os dias. Decidi andar e fui em direção ao Jardin des Plantes. Impressionante o que um pouco de sol pode fazer em uma cidade! Enquanto andava pela trilha entre os canteiros, percebi que algumas centenas, milhares de papoulas de tons que iam do branco ao laranja intenso, passando por várias graduações de amarelo, sorriam e abanavam pra mim. Fiquei intimidado, com um sorriso honesto no rosto. Liguei pra Aline pra dizer que o tempo tava bom e que devia aproveitar a não-chuva pra sair com Joaquim: "Já estamos no parquinho!". Fiquei feliz. Daí avisei: "Tô indo, mas não sei como, nem por onde e nem que horas chego!" Atravessei o Jardin e pensei em seguir pelo Promenade Plantée, próximo de onde morávamos, e seguir por aquele caminho até a Bastille. Mas quando cruzei o Sena, foi como se eu recebesse um abraço de um antigo amigo que há muito não via. Meus olhos brilharam e o sorriso se reforçou. E parece que nessa hora, o sol resolveu me seduzir, vendo que eu tava por ali, facinho, facinho. Dei mole pro sol e vi, ainda cruzando a ponte, as torres de Notre Dame logo na curva. Não resisti. Resolvi cumprimentar aquele velha senhora, de tanta presença, que faz os turistas sorrirem tanto. Desisti de todos os planos e fiquei flanando pela cidade, beirando o rio. Entrei na Ilha de Saint-Louis e segui por sua rua central, sentindo o cheiro doce das boulangeries, vendo as pessoas tomando sorvete na rua ou um vinho nos cafés. Achei um sombrinha pink numa lixeira e levei ela comigo nesse passeio. Cheguei por trás, pelo jardim nem sempre descoberto pelos turistas, me perguntando se Notre Dame é mais linda vista por trás ou pela frente. Circulei ela toda, pelo lado do rio, vendo os canteiros de tulipas violetas em degadrê. Me parei em frente a essa grande dama, encarando-a, e me perguntei novamente: será que ela é mais bonita vista pela frente ou por trás? Sorri e pensei em pirar, abrir a sombrinha pink e sair cantando "La vie en rose" ali mesmo. Não queria ir embora. Então cruzei a rua e fui até a Shakespeare & Cia. Sempre tão cheia e tão apertada, hoje a livraria estava vazia e me embrenhei por entre as estantes abarrotadas de livros novos e velhos do chão ao teto. Me senti num filme quando vi um grupo de pessoas sentadas numa salinha em sofás e poltronas antigas discutindo concentrados, um texto que liam, e quando entrei em outra sala de livros muito antigos, e vi dois homens de barba jogando xadrez enquanto uma mulher de véu sentada um sofá falava com eles e com um garoto de uns 10 anos - o que toda essa gente fazia ali? Sai deste fissura de tempo e espaço e voltei às ruas. Meu rosto quase doía mantendo ainda o mesmo sorriso posto pelas papoulas no Jardin. Só havia se passado um hora, mas finalmente reencontrei Paris!

Tem feito uns dias bem feinhos e chatos. Temos saído pouco por conta disso e dos resfriados que rondam a casa. Temos andando mais nas redondezas do arrondissement, ainda nos instalando e adaptando a vida. Mas na sexta-feira resolvemos superar tudo e fomos ver a torre, atendendo aos pedidos de Joaquim pra ver a torre e andar de trem (metrô). Temos reencontrado Paris aos poucos. Mas tem sido ótima a sensação de estar de volta!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A chegada!

Cá estamos nós, chegamos ontem em Paris!

Com tudo devidamente programado e planejado, nossos últimos dias antes da viagem teriam se resumido a praticamente esperar a hora do embarque SE não fosse um acontecido que não estava no programa e nem nos planos!! Uma surpresa deliciosa deu uma chacoalhada no tempo e nos fez correr atrás de algumas providências imprescindíveis como consulta com obstetra, exames pré-natais, contatos em Paris para nos orientar sobre o novo universo que até então não tínhamos vivenciado aqui na França: la grossesse, ou, a gravidez! Sim, viemos com bagagem extra para cá!!! =)

Claro que isso muda um pouco as coisas - os vinhos franceses ficarão para próxima! - mas ao mesmo tempo não muda quase nada. Consegui fazer uma primeira consulta com meu obstetra, que vai me acompanhar de longe, encaminhei todos os exames iniciais do pré-natal e até conseguimos fazer uma eco antes de vir, o que nos deixou bem seguros de que está tudo bem. E mesmo aqui em Paris, já temos uma vaga idéia do caminho a trilhar para ter um acompanhamento pré-natal durante estes quatro meses. Então está tudo perfeito!! Aliás, mais que perfeito, pois se já estávamos empolgados e felizes com a viagem, a empolgação e felicidade só aumentaram com a notícia do bebê!!!

A viagem pra cá foi bem tranquila, mais até do que poderíamos imaginar. Nosso pequerrucho dormiu praticamente o tempo todo. E quando digo isso, quero dizer 90% do tempo de viagem, incluindo o aeroporto em São Paulo! Na verdade ele trouxe junto uma gripe bem chatinha e isso deu uma derrubada nele durante a viagem, mas fora o sono ele ficou bem. Nós saímos do Brasil às 16h10 do domingo, em São Paulo, onde fizemos a conexão, ficamos 6 horas, o que no final das contas nem demorou tanto assim a passar, entre perambuladas pelo aeroporto, busca por uma casa de câmbio para trocar notas de euros e jantar num cantinho tranquilo enquanto Joaquim dormia, o tempo passou. O vôo de São Paulo a Paris foi super tranquilo, teve um pequeno atraso, mas nada comprometedor. Quando chegamos no aeroporto houve um desencontro com o pessoal do transfer. Não havia ninguém nos esperando conforme o combinado e ficamos um tanto perdidos, caminhando pra lá e pra cá e procurando alguém com uma plaquinha com nosso nome. Nesse momento uma moça com crachá do aeroporto nos abordou perguntando se podia nos ajudar em alguma coisa. Falamos da nossa situação e ela foi super solícita, ligou na empresa de transfer e meio que resolveu nosso problema. Ela nos falou que o aeroporto presta esse serviço de orientação aos estrangeiros porque por ali sempre aparecem motoristas de táxis clandestinos oferecendo serviços. Foi ótimo!!! E ela foi super simpática!

A motorista do transfer ainda levou uns 20 minutos pra chegar, o que nos rendeu um atraso de meia hora para encontrarmos a proprietária do apartamento onde vamos ficar nesses 4 meses. Mas c'est pas grave! Nada grave. Conversamos com ela, entramos, nos instalamos e cá estamos!!! Felizes da vida com a vista maravilhosa do canal de L'Ourcq e com o apartamento gostosinho onde vamos morar. Hoje fez um dia chuvoso, e bastante frio, mas assim que a chuva deu uma trégua saimos, super empacotados, para caminhar pelas redondezas. Joaquim queria ir no "paque", e já vimos que tem alguns parquinhos bem legais aqui pertinho, mas como estava tudo molhado e o bacuri ainda tá meio baqueadinho, nós só caminhamos e nos deliciamos com a vizinhança. E é claro que a máquina fotográfica nos acompanhou!!!

margens do canal, em frente de casa

levemente empacotados para a primavera parisiense!

o verde dando o ar da graça por toda a cidade

ai, ai... Paris!
 
feliz!

primavera!


e no finalzinho da caminhada o solzinho apareceu! Quase 20h...

sábado, 10 de março de 2012

Paris, je t'aime!



Dentre as inúmeras delícias devoltar a Paris, uma das melhores coisas é o sentimento de estar "voltando pra casa". Tantas coisas já nos são familiares, já sabemos onde estão, como funcionam... a ponto de imaginar exatamente como será nosso finalzinho de tarde e início de noite do dia em que chegaremos em Paris. Já estamos até falando no cardápio da janta inaugural: um bom macarrão ao molho de camarão da Picard, com um vinho branco bem gelado... Bom,  isso tudo é possível porque a essas alturas já estamos com as providências mais importantes encaminhadas: as passagens estão compradas e o nosso ninho para os 4 meses e 10 dias de "viver em Paris" já estão acertados. Isso nos dá a leveza necessária para planejar como aproveitar esse tempo da melhor maneira possível - quando falo em aproveitar o tempo, leia-se o tempo livre, afinal temos uma missão a cumprir na cidade luz, missão essa que Ismael cumprirá com maestria, né mor? rssssss...

Sendo assim, para o tempo além pesquisa-biblioteca-curso de francês, estamos planejando várias coisitchas legais, e como nosso tempo por lá está bem datado - 4 meses e 10 dias - estamos pesquisando muito pra ver o que tudo vai rolar na cité. Por exemplo, compramos ingressos para assistir um espetáculo de ballet na Ópera Garnier, agendamos uma corrida de rua no arroundissement onde vamos morar, soubemos que vai dar para prestigiar a chegada do Tour de France na Champs Élysées, curtir a Fête de la Musique pelas ruas da cidade, prestigiar um festival de cinema ao ar livre no Parc de la Vilette, e por aí afora... 


Quando viajamos costumamos pesquisar bastante sobre os destinos e anotar o máximo de opções possíveis de coisas a se fazer, ver, etc. Isso nos dá a liberdade de escolher na hora o que vamos de fato fazer, e elimina qualquer sensação de "estamos deixando de aproveitar", então voi lá, programar é preciso! 





quinta-feira, 1 de março de 2012

Sempre haverá Paris - a volta!

Chegamos ao Brasil em 16 de julho de 2011. Uma comitiva nos aguardava no aeroporto depois de 11 meses vivendo em um outro continente além-mar. A vida que levamos em Paris e por toda a Europa foi muito intensa, plena de descobertas, de auto-superações - um mundo geográfico, cultural, linguístico, social, familiar e interior que se ampliou. Os últimos dias em Paris foram um tanto tristes, pois gostaríamos de ficar mais. No entanto, o mundo no qual havíamos vivido havia se diluído quando nossos objetivos foram cumpridos, nosso contrato de aluguel encerrado, nossa grana docemente torrada. Era hora de voltar, como o planejado. Embora algumas coisas estivessem começando a ficar boas, como ter mais facilidade com a língua, ter incorporado muito conhecimento funcional da vida prática e cotidiana, e sentir os dias se tornarem mais longos, o sol mais quente e a vibração das férias européias chegando junto com o verão, havia findado nossa aventura, que sem dúvida alguma, valeu a pena. No último dia, um medo nos visitou: medo de que tudo aquilo que vivemos caísse em uma memória antiga, como se tudo não tivesse passado de um sonho, já longe das emoções, dos cheiros, dos sabores, das cores. O medo da memória pálida nos assustava pois de uma forma incrivelmente nova aqueles 11 meses haviam nos revelado tanta vida que está além de nosso cotidiano. Mas, como aprendemos tantas vezes com essa viagem, a única coisa que resta é encarar o medo e seguir em frente. E a nossa frente estava a volta.

No aeroporto, ainda recolhendo as malas na esteira de chegada, uma visão de nossos amigos nos aguardando foi emocionante. Tantos meses longe e eles estavam ali, tão perto novamente. Preciso dizer que foi choradeira total?

Encontrar nosso antigo apartamento, rever família e amigos trouxe uma série de emoções. De repente era como se nunca tivéssemos partido. E percebemos que aquele medo sentido na véspera da volta era inútil, pois de fato, em menos de uma semana depois de aterrissarmos nesta terra tupiniquim, as lembranças foram se tornando pálidas e desbotadas - "e descolorirá...", diria Toquinho. As primeiras semanas não foram tão simples, experiência de quem fica fora e volta, sempre voltar parece ser difícil. Aos poucos vamos construindo novas memórias, criando novas relações e parâmetros. A vida aqui é mais fácil. Menos esforço com a comunicação, menos esforço em saber como e por que as coisas são como são. Relaxar ou curtir certa anestesia é bom. Porém, depois de tanta vibração, também é triste. Mas nada de trágico, nem depressivo - apenas relato um pouco sobre a volta e a transição e a necessidade de nos localizarmos novamente no mundo. Sabíamos que era hora de voltar e assim até mesmo a tristeza encontrava certo consolo. Ainda era preciso encontrar nosso novo lugar no mundo conhecido e ver como éramos agora no novo-velho aqui. Não voltamos a velha rotina anterior, pois mudamos nossas formas e lugares de trabalhar, então isso ajudou a deixar certo ar de flutuamento.

Conformados e tentando visualizar a vida em seu tempo profano e cotidiano, rotineiro e instalado em berço esplêndido, eis que surge uma possibilidade, em menos de 2 meses depois da volta, de regressarmos para uma nova estadia em Paris. Foi assim, que diante dessa possibilidade precisamos decidir: voltar ou não voltar, eis a questão. Parece injustificada a dúvida? De forma alguma, pois isto significaria nova jornada de burocracias, novo desprendimento do ninho... Mas por fim, e sem grandes dúvidas, nossa decisão foi sim: Paris não acabou. Depois de 6 meses no Brasil, recebemos a confirmação de nossa ida - não meramente por acaso - para abril de 2012 - primavera em Paris.

E é incrível como a compra das passagens pode fazer uma viagem parecer tão real rapidamente, como mágica. E diante do mapa de Paris, passamos a nos perguntar: e para onde agora? Com uma certa visão da cidade elegemos um dos arrondissements de Paris onde circulamos mas não moramos, mas lembramos que um dia dissemos: seria bom morar aqui. Na árdua tarefa de encontrar um lugar pra morar em Paris, encontramos uma pérola que até excedia nossas expectativas. E ao fecharmos o contrato de aluguel, conseguimos visualizar um futuro que nos aguarda. Hoje, dia primeiro de março, faltam 45 dias para embarcarmos para Paris. E além de todos os compromissos que nos levam novamente, existe um fator emocional que é impossível fingir que não há, pois afinal, aliadas à razão, nossas emoções nos movem ou nos paralisam; e não é o sangue que corre nas veias que move o corpo, mesmo parado?

Embora estejamos tão longe do frio inverno europeu neste ano, parece que a mesma vibração da chegada da primavera que eles logo começarão a sentir lá, nós já sentimos aqui. Embora o verão no Brasil esteja chegando a seu fim, em nós se prepara a primavera - creio que quem já passou por essa experiência, como tivemos em Paris, de ver o mundo renascer em cor depois do inverno cinza, consegue entender exatamente do que estou falando.
Saímos de Paris pensando que talvez nunca mais voltássemos. E exatos 9 meses depois, reencontraremos a Cidade Luz! Oui, nós vamos pra Paris - de novo.

ismaEU

A foto acima é do 19º distrito (arrondissement) de Paris, próximo de onde moraremos agora, nos últimos dias do inverno de 2011. Não veremos as árvores secas quando voltarmos - Paris já terá renascido!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Para fechar um ciclo!

Passados tanto tempo desde o nosso retorno ao Brasil, volto aqui para registrar nossos últimos dias em Paris. O mês de julho. Esse adiamento tem dois lados, o prático, no que concerne à questão do tempo, é preciso tempo para sentar e escrever; e o romântico, uma vez que enquanto não "fecho este ciclo" aqui no blog, parece que ainda tenho mil motivos pra pensar, e lembrar, e querer escrever sobre esse tempo na cidade luz...

Bom, o mês de Julho começou com uma sensação forte de final e de que éramos definitivamente cidadãos do mundo. Havíamos entregue o apartamento em Paris, e um amigo ainda morava em nosso apartamento no Brasil, enquanto nós "morávamos" em um hotel, nos preparando para desbravar a Itália nos últimos dias de Europa.
Embora eu tivesse alguns receios sobre terminar nossa temporada na Europa com uma viagem de 10 dias perambulando em várias cidades, por achar que estaríamos super cansados e um tanto ansiosos com a volta para casa, tive que concordar com Ismael que foi a melhor idéia que tivemos. Assim ficou um sentimento muito gostoso de aproveitar até o último minuto, e não demos espaço para a ansiedade.


Vernazza, vista do mirante do Castelo Doria
No dia 02 de julho embarcamos para a Itália, fizemos o vôo Paris-Pisa e correu tudo bem. No aeroporto mesmo pegamos o carro que alugamos - um Peugeot 107, pequetitinho de tudo, 0km! E começamos nossa aventura rumo às Cinqueterre. Ficamos os dois primeiros dias explorando os cinco vilarejos super charmosos às margens do Mar Mediterrâneo. Pesquisando sobre o lugar, lemos um texto onde alguém fazia uma analogia entre o visual destas Vilas na Itália com as favelas cariocas. A coisa do morro, casinhas penduradas... temos que admitir que salvo todas as diferenças, alguma coisa existe em comum. Amamos o lugar!
De lá partimos rumo à Toscana, fizemos de Siena nossa cidade sede, e de lá partíamos a cada dia para conhecer duas ou mais cidadezinhas, rodando sempre por estradinhas secundárias e nos deliciando com os campos de girassóis, super floridos nessa época. Era até engraçado, pois desde o primeiro campo que vimos, sempre parávamos para fotografar, mas conforme seguíamos viagem os campos iam ficando maiores e mais lindos, e a gente ria por termos ficado loucos com os primeiros que já pareciam tão mirradinhos. As cidadezinhas todas muito convidativas e cheias de cantinhos por onde não cansamos de caminhar e fotografar.


Um dos tantos campos de girassóis que nos acompanhavam na estrada

Além da Toscana, fomos também para a região da Umbria, pois queríamos visitar a Civitá de Bagnioreggio, uma cidadezinha medieval plantada no alto de uma montanha, cujo único acesso é uma ponte longa, estreita (basicamente para pedestres) e de aclive acentuado. Lindo! Um daqueles lugares que parecem cenário de filme. Para ir a Civitá, estabelecemos a base em Orvieto, num bed and breakfast charmosíssimo, Casa Sèlita. Parecia que os donos estavam nos recebendo em casa, muito simpáticos, calorosos e empolgados em nos dar dicas sobre a cidade. Orvieto acho que foi uma das nossas cidades preferidas!



pelas ruas de Orvieto. Catedral lá no fundo...


a caminho da Civitá de Bagnioreggio

Na volta ainda passamos por Siena novamente e antes de ir para o aeroporto fomos ver a Torre de Pisa. No nosso blog de viagens tem mais detalhes sobre esses dias deliciosos na Itália, estamos atualizando aos pouco.

Tínhamos mais 3 dias em Paris antes do fim de nossa temporada. Apesar do cansaço e dos ares de finalmente, estávamos decididos a aproveitar a cidade, passamos muito tempo na rua, tentando não falar muito do nózinho que crescia na garganta. Já estávamos sentindo por ter que partir. Dia 14 de julho era feriado na França, dia da Tomada da Bastilha. Tinha parada de militares na Avenida Champs Elysèes e nós fomos bem felizes dar uma tchauzinho para o Sarkozy. Mas quem disse que conseguimos chegar perto da Avenida, e não era nem por causa da multidão, era porque os acessos todos, de metrô, carro, pedestres... estavam bloqueados! Quando chegamos já estava quase acabando, eles devem ter fechado os acessos em algum momento justamente para evitar que juntasse muita gente, sei lá, sei que ficamos frustrados. Caminhamos às margens do Sena e voltamos para o hotel, dispostos a voltar à noite para ver a queima de fogos prevista para às 23h, seria uma despedida digna de fogos!! Resolvemos ver os fogos da Pont des Ars, porque achamos que seria um bom ponto de vista, longe da multidão na Torre Eiffel e porque nós amamos aquele lugar. Mas tivemos outra surpresa, nós e mais um aglomerado de gente que estava na ponte, em clima de festa, não conseguimos ver praticamente nada! Os fogos não atingiam altura suficiente... desolé! Mas tudo bem, rimos e curtimos os ares de festa até que o cansaço e a perspectiva de enfrentar mais de 24 horas de vôos e aeroportos no dia seguinte, nos conduziram de volta ao hotel


Último fim de tarde que curtimos às margens do Sena...

A viagem de volta foi tranquila, tanto quanto pode ser um vôo com 2 escalas e horas e horas de espera nos aeroportos de Lisboa e do Rio de Janeiro. Mas realmente não dá pra reclamar, no final de tudo tivemos um atraso de apenas 1 hora e pouquinho, e na madrugada do dia 15 para 16 de Julho chegamos em casa. Com direito a banda e tudo no aeroporto!! Foi uma linda surpresa, um grupo de amigos estava lá com um violão e muita animação, nos esperando.
Depois de tanto tempo fora, é muito estranho estar de volta. Depois da primeira semana de euforia, de reencontros e etc, começa a bater uma sensação de que tudo aquilo ficou lá trás, de que já faz muito tempo... Mas uma coisa é fato, as pessoas até hoje nos perguntam se já nos habituamos, se já voltamos à vida normal aqui no Brasil, e concluimos que nunca mais voltaremos à vida que tínhamos antes. Nós não somos mais os mesmos, a experiência que vivemos estará pra sempre conosco, nos fazendo ver, perceber e sentir as coisas diferente de como o fazíamos antes. E, no final das contas, sempre teremos Paris!