Final da tarde, chuvinha insistente caindo e lá fui eu, toda feliz para minha soirée. Saí da estação do metrô com guarda-chuva aberto em mãos. Sabe aquela cena de filme em que a câmera faz um zoom vindo do alto em direção ao guarda-chuva que o personagem está segurando e ao se aproximar revela o personagem por trás do guarda-chuva com uma expressão de "embasbacado" no rosto, como quem se depara com algo surpreendentemente belo? Pois foi a cena que vivi ao sair da estação Opéra e dar de cara com o Palais Garnier. Aliás, eu não sei quantas vezes eu já parei pra ficar olhando essa lindeza de edifício, mas acho que toda vez faço a mesma cara de embasbacada. Passado o primeiro momento de deslumbre, segui para meu compromisso, me sentindo toda importante com o ingresso em mãos.
No ano passado, nos últimos dias de Paris, uma das coisas que ainda aproveitamos para fazer foi a visita guiada ao Palais Garnier, foi muito legal, ficamos super impressionados. E essa visita anterior me deu certo desprendimento ao entrar lá ontem, principalmente porque eu acho que se fosse minha primeira vez lá dentro eu perderia o início do espetáculo, não por me perder, porque apesar de o lugar ser imenso, tinha muitos atendentes e guias orientando super bem o público, mas porque a gente fica bobo mesmo, sem saber pra que lado olhar primeiro, é tudo muito lindo! Muitos detalhes delicados, rebuscados e impressionantes... lindo! Bom, eu consegui manter o foco e fui ao meu lugar, 3èmes loges de face 27 - place 5, só precisei descobrir que ficava no 4o andar, o resto eu eu decifrei sozinha, he he... quando cheguei no "meu" camarote dei de cara com uma porta fechada e sem trinco. Como assim? Meio segundo de dúvida foi suficiente para, do nada, surgir um rapaz de smoking perguntando se podia me ajudar, oui! Mostrei a ele meu ingresso e descobri que ele era o guardião das chaves do lado ímpar dos 3émes loges. A porta foi aberta e meu lugar apresentado, quando vi onde eu iria sentar só consegui dizer Mon Dieu! Não foi nem Merci, nem Thanks, foi mesmo Mon Dieu! De cara eu achei que não veria nada do espetáculo, haviam 9 pessoas no camarote, 10 comigo, sentadas em três fileiras num ângulo não muito favorável em relação ao palco. Quando finalmente me acomodei na minha cadeira fiquei um pouco mais aliviada, conseguia enxergar talvez 60% do palco, mas nada de ver a orquestra se ficasse sentada, o que me fez levantar uma vez ou outra para espiar os músicos. Porém quando a cortina se abriu e o espetáculo iniciou, percebi que havia conquistado mais campo de visão, acho que não tem lugar naquela platéia de onde não se enxergue aquele palco imenso! Passei a visualizar uns 90% do palco, havia apenas um cantinho impossível de ver, mas me convenci de que nada importante aconteceria ali, rsss...
O espetáculo estava muito bonito, uma super produção de cenários e figurinos, bailarinos com uma ótima performance mas... pra mim o espetáculo maior ainda era estar sentada lá, naquele camarote, me sentindo às vezes num filme de época, imaginando os nobres que estariam sentados nos camarotes vizinhos, os vestidos deslumbrantes das madames, duquesas, condessas e marquesas. A propósito, fique me perguntando se havia alguma regra de figurino para ir a um ballet no Palais Garnier, mas conclui que não existe regra alguma, vi uma ou outra distinta senhora um pouco mais produzidas, mas no geral a etiqueta diz "venha como quiser". Em outros momentos me senti num daqueles filmes de suspense em que o diretor explora a escuridão na platéia e os olhares do público se cruzando de um camarote para outro, música clássica como trilha, preparando para o momento ápice do suspense... eu quase vi Le Fantôme de l'Opéra vagando nos fundos escuros dos camarotes do outro lado da platéia... uuuuu!!!!
No primeiro intervalo aproveitei para olhar com calma tudo de novo lá fora, os corredores, as escadarias, o hall... eu e a torcida do Flamengo! Só dava neguinho com máquina fotográfica registrando aquele deslumbre todo. Começou o segundo ato e voltamos todos aos nossos lugares. Os camarotes são o que há de fofos, tudo acarpetado, em vermelho, sofazinho na entrada, porte manteaux na parede que é pra ninguém ficar derretendo em seus casacos por causa da calefação, espelho para as madames darem uma conferida no look antes de expor sua figura em seus acentos com vista para os outros 1978 espectadores. Quando terminou o segundo ato, com o assassinato do irmão de Manon (o espetáculo era L'histoire de Manon), me dei conta de que ainda havia um intervalo e mais uns 45 minutos de espetáculo. Me dei por satisfeita, já tinha curtido um bom bocado e para ajudar a me convencer de que era hora de partir, meu vizinho de cadeira havia ferrado no sono durante o segundo ato e precisei empurrá-lo de volta umas três vezes quando senti que estava servindo de escora para o sujeito, ninguém merece, né?
Saí feliz (junto com bastante gente) do Teatro mais lindo que frequentei até hoje e continuei sorrindo quando dei de cara com as ruas molhadas em frente ao teatro, a chuva havia parado, mas deixou sua marca aumentando o brilho dessa noite que foi vraiment charmant, ou, de fato encantadora!

Quelle marveille!! Delícia de passeio... Parece até que vi você em cada cena. Bjão!
ResponderExcluirE não foi maninho? Quem sabe em julho vc e Mica assistem alguma coisa também! Acho que é uma experiência e tanto!!! Dá pra ver a programação e comprar ingressos com bastante antecedência! Se não, ao menos a visita guiada acho legal vcs fazerem!! Beijinhos!!!
ExcluirEsse relato está maravilhoso, Aline! Me senti entrando na ópera com vc... e o que são essas fotos? Eu fiz a visita tb à Ópera e fiquei de queixo caído... só assim pra ter certeza que suas fotos são de um lugar de verdade e não uma ilustração...
ResponderExcluirbisous
Aline
ResponderExcluirlinda a sua descricao da Opera e do espetaculo. Realmente eu achei a opera de Paris muito bonita apesar de ter somente visto por fora naquele dia que nos encontramos na Galeria Lafayette. Uma vez eu fui tb sozinha na opera de Viena assistir o Lago dos Cisnes e amei! Vc me animou a voltar mais vezes na Opera. Lembrando que eu moro a 5 min a pe da de Viena. Essas sao algumas oportunidades que nao podemos perder.
Bjs