retrospectiva

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sábado, 22 de maio de 2010

Le temp et la façon dont cela s´est passé | O tempo e o jeito de acontecer...


É engraçado como as coisas acontecem quando tem que acontecer. Nós sempre imaginamos viver essa experiência de morar fora do país antes dos filhos darem o ar da graça. E olha que tivemos tempo para isso, foram 12 anos antes do nosso chéri Joaquim chegar. Nesse tempo, como mencionei no post anterior, até tivemos chance de ir, mas seria de um jeito um tanto louco e calculamos que a experiência seria bem penosa, pois não teríamos bolsa de estudos e nenhuma renda certa. Concluimos que não seria uma boa idéia. Não fomos. Precisou o Ismael passar num concurso público, completar o período de estágio probatório, começar um doutorado aqui mesmo no Brasil, nós engravidarmos, nosso pequerrucho nascer, e o Ismael conseguir uma licença de afastamento remunerado de seu trabalho, para então nosso projeto acontecer. E a sensação que temos é a de que sempre planejamos que seria no ano de 2010, com um bebê de 9 meses à tiracolo e pelo período de um ano. Parece que tudo é como tinha que ser. E a sensação de que estamos indo na hora e do jeito certo não tem preço!

Mas vou falar um pouco mais sobre como chegamos até aqui. A idéia de vivermos fora do país por um tempo sempre esteve vinculada ao doutorado do Ismael. Não sabíamos se o curso todo seria fora, ou se seria um esquema de bolsa sanduíche. Mas víamos no doutorado a chance de isso acontecer, pois nos parecia bastante improvável simplesmente largar tudo aqui e ir passar um ou dois anos em algum país, fazendo qualquer coisa. Então no início de 2009, praticamente junto com a notícia da gravidez, veio a notícia de que Ismael tinha sido aceito no programa de Doutorado para o qual havia se inscrito. Ele cumpriria as disciplinas por aqui mesmo e, enquanto isso, íamos planejando como viabilizar nosso projeto no exterior. Algumas pessoas nos perguntavam "mas como assim? e o nenê?", "vai junto ué!", para nós isso em nenhum momento significou mudar os planos.

Ismael começou a correr atrás de informações e soluções práticas para a coisa acontecer, e eu sou testemunha de o quanto isso foi uma tarefa árdua, pois não se encontra nada numa bandeja ao alcance dos olhos quando o assunto é estudar no exterior. Na Universidade onde ele faz o Doutorado não souberam informar praticamente nada a respeito de bolsa sanduíche, no seu trabalho ele foi um desbravador pois quase ninguém sabia indicar os caminhos para o pedido de afastamento ou incentivos para estudo e pesquisa, enfim, uma das coisas que mais ajudou foi um longo café com um amigo que acabava de voltar de um período de estudos na Inglaterra. Ele foi super camarada, levou consigo praticamente um dossiê do caminho que percorreu até estar lá. Resumo da ópera, naquele dia concluímos que seria mais fácil se a gente fosse independente de qualquer subsídio do governo brasileiro ou, pelo menos, dos subsídios padrão - CNPq e CAPES. Isso porque, pelo que este amigo experimentou, não tínhamos mais tempo hábil para solicitar uma bolsa e ir ainda este ano. É um processo lento, bastante trabalhoso e também caro, pelo tanto de documentos, declarações, etc. que são solicitados. Claro que nunca achamos que seria super simples e rápido, afinal se fosse assim, todo mundo ia estudar fora! Mas a questão principal era a do tempo, por uma questão de cronograma para o Ismael o ideal seria ir este ano, e ele tem data certa para estar lá, pois faz parte de sua pesquisa frequentar aulas de um curso que começa em outubro. Decidimos empenhar a poupança, vender o carro e contar com o salário que Ismael continuará recebendo durante a licença para viver durante este um ano. Essa decisão nos trouxe certo alívio, pois tornou a coisa um pouco menos dependente de fatores externos e também nos dá a liberdade de, por exemplo, voltar antes do planejado se, por algum motivo, for necessário. Decidido então que iríamos por conta e, se alguma coisa embaçasse no meio do processo, tentaríamos ir com bolsa sanduíche no próximo ano.

A partir do momento em que batemos o martelo sobre isso, parece que a coisa começou a andar. Soubemos, através de amigos, sobre o Campus France, um orgão que viabiliza o acesso ao estudo na França, no sentido de fornecer orientações sobre universidades, visto, moradia, etc. Ismael criou uma conta no site e deu início ao processo dos vistos e aproveitou para se informar sobre várias coisas. O atendimento deles é ótimo, realmente facilita muito o caminho. Chegaram a nos ligar em casa para falar de um documento que precisávamos providenciar. E o legal é que eles adiantam muito o serviço em relação aos vistos, depois de tudo certo e providenciado marcamos a entrevista no Consulado em São Paulo.

Ismael fez contato com a Escola que pretende pesquisar e se matriculou no curso tema de sua pesquisa. Foi uma aventura esse contato todo em francês através de e-mails. Agradecimentos aos tradutores online e às nossas professoras de francês!

Começamos também a pesquisar moradia em Paris. Afffe!! Tudo super caro, e pequeno! Mas tudo bem, faz parte da aventura e estamos pra lá de empolgados com a idéia de ocupar qualquer vinte metros quadrados, desde que tenhamos uma vista dos "telhados de Paris" de alguma janela!

Aos poucos fomos tecendo uma rede de informações e referências, o que foi nos deixando cada vez mais seguros e cientes de que a coisa estava mesmo acontecendo. Muita empolgação e frios na barriga de vez em quando!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Au début | No início

O começo de tudo foi há tempos. Muitos tempos. Foi quando Ismael e eu nos conhecemos. Tínhamos em comum não pertencermos à cidade onde nos encontramos. O que fazíamos ali? Estudávamos. Uma fase da vida depois da qual seguem outras fases, com certeza (assim pensávamos) em outras "paragens" (do gaúchês "terras"). Mas acontece que nosso se conhecer virou um se gostar, dali pra se apaixonar foi um pulo e quando nos demos conta estávamos no se casar e criar raízes. Esse criar raízes foi uma coisa natural e quando nos demos conta gostávamos da "nossa" cidade, do nosso canto, do nosso universo em comum. Mas lá no fundinho aquele desejo por novas paragens permaneceu. E sempre foi um desejo forte, grande mesmo, e muito compartilhado, de ter um contato, mais intenso do que alguns dias de férias, com outra cultura. Acho até que foi sempre isso que nos moveu em nossas viagens, quanto mais longe e diferente melhor: mochilão pela Europa, depois Argentina e Uruguai, dirigir pelas cidades históricas de Minas e Litoral Carioca, conhecer a "esquina" do Brasil, mergulhar em Noronha, andar de "pau-de-arara" em Jericoacoara, passar três dias viajando de barco no Rio Amazonas, beber Pisco Sur e Chá de Coca no Peru, mergulhar nas Galés de Maragogi e subir e descer ladeiras em Olinda foram algumas de nossas aventuras, porém sempre de alguns, às vezes muitos, dias. E nessas aventuras sempre brincamos de eleger lugares onde um dia ainda iremos morar - Barcelona, Paris, São João Del Rei, Santarém, Buenos Aires, Recife... já houve ocasião em que quase demos uma de loucos e nos mandamos para Barcelona por nossa conta e risco, quando Ismael foi aceito para uma vaga de doutorado. Mas não tínhamos bolsa de estudos, bateu o medão, não fomos...

Agora, passados 12 anos e meio juntos e bem vividos, algumas viagens de ensaio, um filho e uma mochilinha a mais para carregar, eis que nosso desejo pelo novo está prestes a se realizar no velho mundo: oui, Paris!!! Estamos embarcando para a aventura de viver um ano na Cidade Luz, no papel oficial de pesquisador, esposa e filho e no extraoficial de uma família disposta a experimentar tudo o que a cidade tem a oferecer para quem vem de fora disposto a conhecer, explorar, degustar e absorver Paris nos mínimos detalhes. Se é que um ano é tempo suficiente para isso!