Estratégias do caminhar - Flanêur
'' (...) Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes — a arte de flanar.
(...)Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem.
(...)É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o
inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. (...)'' (A rua - João do Rio)
(...)Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem.
(...)É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o
inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. (...)'' (A rua - João do Rio)
Eu encontrei esse texto por acaso na internet, num blog onde a autora fala um pouco mais sobre o 'flanador'. E o texto é perfeito para introduzir um relato do meu momento flanêur que tive ontem. Vou começar do começo.
Ismael sempre foi mais "virador" do que eu. Ele tem, digamos assim, uma natureza de explorador bem maior que a minha, do tipo, se estamos caminhando e passamos pela entrada de um beco, ele sem dúvida nenhuma vai entrar pra ver o que tem lá, quando eu, muitas vezes, nem reparei que havia um beco ali. Juntando isso ao fato de que ele tem circulado bem mais do que eu aqui em Paris, por conta das idas às bibliotecas, Arquivo Nacional, etc., logo ele tem feito algumas descobertas bem legais, de lugarzinhos interessantes que vale a pena conhecer. E isso tem inclusive rendido uma situação engraçada, nossos passeios muitas vezes tem sido "repetecos" de lugares onde ele já esteve e resolveu voltar e me levar pra ver também. Sinceramente? Adoro!
Ontem foi mais ou menos assim. Ele saiu na hora do almoço para um tandem que está fazendo com uma amiga francesa (ele pratica o francês com ela, ela aprende português com ele, é bem legal!), e depois da aula ele deu uma caminhada pela região do Marais e arredores. Chegou em casa empolgado com uma ruazinha que até então não conhecíamos. Perguntou se eu não queria dar uma saída sozinha, tomar um ar, flanar um pouco. Eu quis. E fui. Ismael me explicou no mapa onde era a tal rua e lá fui eu.
Saindo da estação do metrô, caí dentro do centro comercial Les Halles, tratei logo de buscar ar puro, pois ontem foi feriado aqui na França então imaginem um shopping muuuuito cheio. Acontece que aquela região de Les Halles, sempre me pareceu bem muvuquenta, e mesmo já estando ao ar livre, ainda tinha uma certa sensação de sufocamento. Pra ajudar, assim que coloquei o pé na rua começou a cair um chuvisco chato. Ai, ai, ai... pensei com meus botões "nada de desânimo! É pra ser uma passeio gostoso e vai ser!". Acontece que além de mais explorador, Ismael também é mais orientado geograficamente. Eu sou perdida. Não sabia pra que lado ir, resolvi sair caminhando pra ver onde ia chegar, encontrei uma livraria Mona Lisait no caminho, e não tem como não parar e ficar olhando a infinidade de livros bons, bonitos e baratos expostos em gôndolas na calçada (sem ninguém cuidando! pense...). Comecei a relaxar e senti que meu fim de tarde tinha tudo pra ser bom. A dúvida voltou quando, saindo da livraria e caminhando mais um pouco dei de cara com o mesmo lugar onde eu havia saído do metrô... Resolvi escolher outra direção e consultei um mapa. Agora sim, estava no caminho certo.
Não demorou muito e encontrei a tal ruazinha. Ela começa com o nome de Rue Montorgueil e logo vira Rue Poissonniere. O que ela tem de tão especial? Acho que é um pouco difícil de explicar, mas assim que cheguei ali entendi o que Ismael quis dizer. Ela parece transpirar a essência do ar parisiense, as lojas, cafés, as pessoas caminhando, o movimento, a luz... E foi incrível como mudei meu humor, perdi a pressa, relaxei, assim que percebi onde estava. Até o tempo mudou, o chuvisco parou e um solzinho tímido apareceu, jogando uma luz dourada em tudo e todos. Fui obrigada a escolher um café, daqueles mais "estereótipo parisiense" possível, com mesinhas redondas de tampo de vidro, cadeiras de palhinha, espaço apertadinho, mas muito convidativo. Escolhi uma mesa na calçada, logo sentaram turistas alemães na mesa atrás de mim, em seguida um senhor francês rabugento, na mesa ao lado, ele só parou para fumar um cigarro e tomar um expresso e logo partiu, e em outra mesa sentou outro senhor francês, com um jornal e seu cachorro na coleira, ele tomou uma coca light. Apesar da cafeína (não muito indicada para grávidas), eu pedi um café au lait, e degustei com o maior prazer e a menor pressa do mundo, enquanto aproveitava para escrever para o bebezinho, no diário que estamos fazendo para ele(a).
Acho que eu não cansaria nunca de ficar sentada ali, vendo passarem os turistas, as famílias aproveitando o feriado, os casais apaixonados... mas lá pelas tantas resolvi continuar caminhando pela ruazinha convidativa. Apesar do feriado, muitas das lojas estavam abertas, não comprei nada, mas me deliciei olhando tudo e mais um pouco. Quando estava quase chegando na Boulevard Bonne-Nouvelle, percebi um grande, mas muito grande mesmo, movimento em frente a um cinema. Havia uma fila, e comecei a rir sozinha quando percebi na fila ninguém mais ninguém menos que Edward Mãos de Tesouras, A Noiva Cadáver, O Chapeleiro Maluco e váaaarios outros personagens do Tim Burton, e muitos deles repetidos... eram cosplays, alguns lindamente produzidos, outros nem tanto, aguardando na fila para a avant-première do novo filme de Burton, Dark Shadows. Eu já tinha sentido bastante falta da máquina fotográfica, mas nessa hora fique indignada por não estar com ela na bolsa. Foi muito inusitado!
Chegando na Bonne-Nouvelle procurei a loja Auber, de roupas e acessórios para bebês, Ismael tinha visto que estava aberta e resolvemos aproveitar para comprar a capa de chuva para o carrinho do Quim (esquecemos a nossa no Brasil, tipo dos manés... era a certeza de que só veríamos sol por aqui...). Essa loja é o templo da perdição para uma mulher grávida! Tem tanta coisa linda que a gente chega a ficar tonta... Depois de muito olhar e babar, saí de lá com a capa de chuva e um Calendrier de Grossesse, ou Caledário de Gravidez, um mimo pra poder contar os dias de um jeito mais fofo, he he...
Voltei pra casa feliz! Foi uma bela "flanada".
Não demorou muito e encontrei a tal ruazinha. Ela começa com o nome de Rue Montorgueil e logo vira Rue Poissonniere. O que ela tem de tão especial? Acho que é um pouco difícil de explicar, mas assim que cheguei ali entendi o que Ismael quis dizer. Ela parece transpirar a essência do ar parisiense, as lojas, cafés, as pessoas caminhando, o movimento, a luz... E foi incrível como mudei meu humor, perdi a pressa, relaxei, assim que percebi onde estava. Até o tempo mudou, o chuvisco parou e um solzinho tímido apareceu, jogando uma luz dourada em tudo e todos. Fui obrigada a escolher um café, daqueles mais "estereótipo parisiense" possível, com mesinhas redondas de tampo de vidro, cadeiras de palhinha, espaço apertadinho, mas muito convidativo. Escolhi uma mesa na calçada, logo sentaram turistas alemães na mesa atrás de mim, em seguida um senhor francês rabugento, na mesa ao lado, ele só parou para fumar um cigarro e tomar um expresso e logo partiu, e em outra mesa sentou outro senhor francês, com um jornal e seu cachorro na coleira, ele tomou uma coca light. Apesar da cafeína (não muito indicada para grávidas), eu pedi um café au lait, e degustei com o maior prazer e a menor pressa do mundo, enquanto aproveitava para escrever para o bebezinho, no diário que estamos fazendo para ele(a).
Acho que eu não cansaria nunca de ficar sentada ali, vendo passarem os turistas, as famílias aproveitando o feriado, os casais apaixonados... mas lá pelas tantas resolvi continuar caminhando pela ruazinha convidativa. Apesar do feriado, muitas das lojas estavam abertas, não comprei nada, mas me deliciei olhando tudo e mais um pouco. Quando estava quase chegando na Boulevard Bonne-Nouvelle, percebi um grande, mas muito grande mesmo, movimento em frente a um cinema. Havia uma fila, e comecei a rir sozinha quando percebi na fila ninguém mais ninguém menos que Edward Mãos de Tesouras, A Noiva Cadáver, O Chapeleiro Maluco e váaaarios outros personagens do Tim Burton, e muitos deles repetidos... eram cosplays, alguns lindamente produzidos, outros nem tanto, aguardando na fila para a avant-première do novo filme de Burton, Dark Shadows. Eu já tinha sentido bastante falta da máquina fotográfica, mas nessa hora fique indignada por não estar com ela na bolsa. Foi muito inusitado!
Chegando na Bonne-Nouvelle procurei a loja Auber, de roupas e acessórios para bebês, Ismael tinha visto que estava aberta e resolvemos aproveitar para comprar a capa de chuva para o carrinho do Quim (esquecemos a nossa no Brasil, tipo dos manés... era a certeza de que só veríamos sol por aqui...). Essa loja é o templo da perdição para uma mulher grávida! Tem tanta coisa linda que a gente chega a ficar tonta... Depois de muito olhar e babar, saí de lá com a capa de chuva e um Calendrier de Grossesse, ou Caledário de Gravidez, um mimo pra poder contar os dias de um jeito mais fofo, he he...
Voltei pra casa feliz! Foi uma bela "flanada".
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